A dor crônica na coluna é definida como dor que persiste por mais de 3 meses, frequentemente com componente neuropático (queimação, choque, formigamento). É uma das condições mais complexas da medicina — porque raramente tem uma causa única e raramente responde a uma única solução.
O tratamento moderno é multimodal: combina várias abordagens em sequência ou simultaneamente, ajustadas ao perfil individual do paciente.
Pirâmide de tratamento — do menos ao mais invasivo
- 1º nível — Conservador: fisioterapia, exercício orientado, medicação, psicoterapia da dor;
- 2º nível — Intervencionista: bloqueios nervosos, radiofrequência, ozônioterapia guiada;
- 3º nível — Neuromodulação: estimulação medular (SCS), estimulação de campo, bomba de morfina intratecal;
- 4º nível — Cirúrgico: quando há causa anatômica tratável identificada.
Fisioterapia e exercício — a base inegociável
A musculatura profunda do tronco (core) é o suporte natural da coluna. Sem ela, qualquer tratamento é paliativo. Fortalecimento direcionado, caminhada progressiva e pilates clínico têm nível de evidência alto para dor crônica lombar. O segredo é a consistência — não a intensidade.
Medicação para dor crônica
- Anti-inflamatórios: eficazes na fase aguda; não devem ser usados cronicamente pelo risco renal, gástrico e cardiovascular;
- Antidepressivos (duloxetina, amitriptilina): ação analgésica independente do efeito antidepressivo — muito úteis em dor neuropática;
- Anticonvulsivantes (pregabalina, gabapentina): para o componente de queimação e formigamento;
- Opioides: uso controlado e criterioso — indicados em casos selecionados com falha das demais opções.
Estimulação Medular (SCS)
A neuromodulação medular é uma das opções mais modernas para dor crônica refratária. Um eletrodo é posicionado no espaço epidural próximo à medula. Uma bateria implantada subcutaneamente emite pulsos elétricos que modulam o sinal de dor — substituindo a sensação dolorosa por uma leve vibração ou, nas técnicas mais modernas, por analgesia sem parestesia (estimulação em alta frequência).
- Síndrome pós-laminectomia (dor persistente após cirurgia de coluna);
- CRPS (síndrome de dor regional complexa);
- Dor isquêmica de membros;
- Dor neuropática refratária a múltiplos tratamentos.
Ozônioterapia intradiscal e paravertebral
A infiltração de ozônio medicinal no disco ou no tecido muscular paravertebral tem evidência crescente para dor discogênica e lombalgia miofascial. É segura, bem tolerada e pode ser combinada com bloqueios.
Quando finalmente operar?
A cirurgia é indicada quando há causa anatômica identificada (hérnia de disco, estenose, instabilidade) associada a sintomas que não respondem à abordagem não-cirúrgica bem conduzida. A filosofia é sempre: conservador primeiro, cirurgia apenas quando necessária e com indicação precisa.
Perguntas frequentes
Sim. Dor crônica antiga ainda responde a tratamento, especialmente se nunca foi abordada de forma multimodal. A avaliação especializada define o que ainda não foi tentado.
Sim — o eletrodo e a bateria podem ser removidos. Além disso, antes de implantar definitivamente, faz-se um teste de 7–14 dias com eletrodo temporário.
É uma opção regulamentada no Brasil em casos selecionados. Discuta com seu médico — a evidência é crescente para dor neuropática, mas a indicação é individualizada.
📚 Referências
- Deer TR et al. The Polyanalgesic Consensus Conference — Neuromodulation for Chronic Pain. Neuromodulation. 2017.
- Manchikanti L et al. Comprehensive Evidence-Based Guidelines for Facet Joint Interventions. Pain Physician. 2020.
