A dor nas costas é uma das queixas mais comuns do mundo — e uma das mais negligenciadas. No consultório, ouço com frequência a mesma frase: "doutor, eu já me acostumei com a dor". E é justamente aí que mora o problema: dor crônica não é normal, e boa parte do que a alimenta está nos hábitos do dia a dia.
Antes de falar de exames e tratamentos, vale olhar para cinco comportamentos que sabotam sua coluna silenciosamente.
1. Passar horas sentado do jeito errado (e sem pausas)
O corpo humano não foi projetado para 8 horas sentado. Na posição sentada — principalmente com o tronco projetado para a frente, em direção à tela — a pressão sobre os discos lombares aumenta consideravelmente em relação à posição em pé.
O que fazer: ajuste a altura da tela na linha dos olhos, apoie a lombar no encosto e, mais importante que a cadeira perfeita: levante-se a cada 50–60 minutos. A melhor postura é a próxima — o corpo gosta de variação, não de estátua.
2. Usar o celular com o pescoço "de gancho"
Olhar para o celular com a cabeça totalmente flexionada multiplica a carga sobre a coluna cervical. A cabeça pesa em torno de 5 kg em posição neutra; inclinada para baixo, o esforço sobre a cervical equivale a várias vezes esse peso. Horas por dia nessa posição, todos os dias, cobram a conta: dor cervical, tensão nos ombros e dor de cabeça.
O que fazer: traga o celular à altura dos olhos, e não os olhos à altura do celular. Pequeno ajuste, enorme diferença.
3. Dormir em colchão vencido (ou na posição errada)
Um terço da sua vida acontece em cima do colchão. Colchão deformado, muito mole ou muito velho impede a coluna de manter o alinhamento durante o sono — e você acorda pior do que deitou.
O que fazer: colchão de firmeza intermediária, trocado quando começa a afundar. Quem dorme de lado se beneficia de um travesseiro que preencha o espaço entre o ombro e a cabeça, com outro travesseiro entre os joelhos. Dormir de bruços é a posição que mais torce a cervical — evite.
4. Sedentarismo — ou o mito do "repouso protege a coluna"
Esse talvez seja o hábito mais traiçoeiro, porque parece cuidado. Quem tem dor tende a se mover menos; movendo-se menos, a musculatura que sustenta a coluna enfraquece; enfraquecida, a coluna dói mais. É um ciclo — e ele só se quebra com movimento.
A musculatura profunda do tronco (o famoso core) é o colete natural da sua coluna. Sem ela, toda a carga vai para discos e articulações.
O que fazer: exercício regular orientado — fortalecimento, caminhada, pilates, musculação bem supervisionada. Para quem já tem dor, o ideal é começar com orientação profissional. Movimento é remédio; a dose certa é individual.
5. Conviver com a dor e adiar a avaliação
Tomar anti-inflamatório por conta própria toda semana, "dar um jeitinho" com pomada e seguir convivendo com a dor por meses é o quinto hábito — e o mais perigoso. Não porque toda dor nas costas seja grave (a maioria não é), mas porque a dor persistente tem causa, e causa identificada é causa tratável.
Quando a dor nas costas merece avaliação especializada?
Procure um especialista em coluna se a sua dor:
- Persiste por mais de algumas semanas apesar dos cuidados básicos;
- Desce pela perna ou irradia pelo braço, com formigamento ou choques;
- Vem acompanhada de perda de força (pé que tropeça, mão que deixa cair objetos);
- Piora à noite ou não alivia com repouso;
- Surge após queda ou trauma;
- Vem acompanhada de febre ou perda de peso sem explicação.
E se for algo além do hábito?
Quando a dor tem causa estrutural — hérnia de disco, estenose do canal, instabilidade — o tratamento segue a mesma lógica que aplico em toda a minha prática: conservador primeiro. Medicação correta, reabilitação, e procedimentos intervencionistas para dor (como bloqueios guiados e radiofrequência) quando indicados. A cirurgia entra apenas nos casos em que é realmente necessária.
"Menos corte. Mais vida" não é só uma frase: é a ordem em que as coisas devem acontecer.
Perguntas frequentes
Não. Alterações degenerativas são comuns com a idade, mas dor diária e limitante não é algo a "aceitar" — é algo a investigar e tratar.
Não. A consulta começa pela sua história e pelo exame físico; o exame de imagem é solicitado quando há indicação. Se você já tem exames, traga todos.
Exercício mal orientado pode piorar; exercício bem orientado é parte do tratamento. Por isso a avaliação vem antes: primeiro entender a causa, depois liberar e direcionar o movimento.
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