Seu familiar está mais esquecido, caminha devagar e às vezes perde urina. O médico de família disse "demência senil" ou "provável Alzheimer". Mas e se não for? E se for uma condição tratável cirurgicamente que está sendo confundida com uma doença sem cura?
Essa é uma das situações mais impactantes da prática neurocirúrgica: identificar um paciente com Hidrocefalia de Pressão Normal (HPN) que estava sendo tratado como Alzheimer — e que, após a cirurgia de derivação, recupera a capacidade de caminhar e de interagir com a família.
Por que a confusão acontece?
Porque os sintomas se sobrepõem. Tanto a HPN quanto o Alzheimer afetam memória, comportamento e autonomia em pacientes idosos. Mas os mecanismos são completamente diferentes — e, consequentemente, os tratamentos também.
Tabela comparativa — HPN vs Alzheimer
- Marcha: HPN — passo curto, arrastado, "colado no chão" (apraxia de marcha) | Alzheimer — marcha geralmente preservada no início
- Cognição: HPN — lentidão de pensamento, déficit de atenção | Alzheimer — afasia, agnosia, apraxia mais pronunciadas
- Bexiga: HPN — incontinência urinária frequente | Alzheimer — incontinência tardia
- Início: HPN — pode ser subagudo, em semanas a meses | Alzheimer — insidioso, progressão em anos
- Tomografia/RNM: HPN — ventrículos muito aumentados, cortical relativamente preservada | Alzheimer — atrofia cortical predomina
- Tratamento: HPN — cirúrgico (DVP) com boa resposta | Alzheimer — não tem tratamento curativo
A regra dos 3 "A" do Alzheimer vs os 3 "S" da HPN
Uma forma prática de diferenciar:
- Alzheimer: Afasia (dificuldade de fala), Agnosia (não reconhece objetos/pessoas), Apraxia (incapacidade de executar movimentos aprendidos) — esses sintomas são precoces.
- HPN: Slowness (lentidão de marcha), Stumbling (tropeçar, passos curtos), Sphincter (bexiga hiperativa, incontinência) — o trio que deve alertar.
Como confirmar que é HPN?
O tap test (punção lombar diagnóstica) é o exame mais útil: retira-se 30–50 mL de líquor e avalia-se a marcha nas 24–72h seguintes. Melhora objetiva da marcha após a punção é altamente preditiva de resposta à cirurgia de derivação.
A ressonância magnética com protocolo específico para HPN — avaliando o índice de Evans, a dilatação do aqueduto de Sylvius e o aspecto do espaço subaracnóideo — complementa o diagnóstico.
A mensagem central
Todo paciente idoso com declínio cognitivo associado a alteração da marcha deve ter neuroimagem antes de receber diagnóstico de Alzheimer. A HPN é rara o suficiente para ser esquecida, mas frequente o suficiente para justificar a busca ativa — porque quando é encontrada, pode ser tratada.
Se um paciente com "demência" tem marcha tipicamente arrastada com passos curtíssimos — especialmente se esse foi o primeiro sintoma — sempre solicite uma tomografia ou ressonância do crânio e encaminhe para avaliação neurocirúrgica.
Perguntas frequentes
Sim, especialmente em idosos. Nesse caso, a cirurgia pode melhorar os sintomas dependentes da hidrocefalia, mesmo que a doença de Alzheimer coexista. Por isso, a avaliação neurocirúrgica é sempre válida.
Sim, especialmente se a alteração de marcha precede ou é mais proeminente que os problemas de memória. Uma tomografia e avaliação neurocirúrgica podem mudar o diagnóstico e o curso do tratamento.
📚 Referências científicas
- Relkin N et al. Diagnosing idiopathic normal-pressure hydrocephalus. Neurosurgery. 2005.
- Jaraj D et al. Prevalence of idiopathic normal-pressure hydrocephalus. Neurology. 2014;82(16):1449-54.
- Factora R, Luciano M. Normal pressure hydrocephalus: diagnosis and new approaches to treatment. Clin Geriatr Med. 2006;22(3):645-57.
