Imagine um paciente idoso com dificuldade para caminhar, lentidão de raciocínio e episódios de perda urinária. É natural que a família e até alguns médicos pensem em Alzheimer ou Parkinson. Mas há uma condição que imita essas doenças — e que, ao contrário delas, tem tratamento cirúrgico com alta probabilidade de melhora: a Hidrocefalia de Pressão Normal (HPN).
Reconhecer a HPN antes que o paciente piore é um dos aspectos que mais me motivam na prática neurocirúrgica. Cada diagnóstico correto pode devolver anos de vida funcional a uma família inteira.
O que é Hidrocefalia de Pressão Normal?
A hidrocefalia ocorre quando há acúmulo excessivo de líquor (líquido cefalorraquidiano) nos ventrículos cerebrais. Na HPN, esse acúmulo dilata os ventrículos — comprimindo o tecido cerebral ao redor — mas a pressão medida na punção lombar está dentro dos limites normais ou levemente elevada. Daí o aparente paradoxo no nome.
A fisiopatologia envolve alteração na absorção do líquor, frequentemente ligada a inflamação crônica das meninges, sequela de hemorragia subaracnóidea, meningite ou — na maioria dos casos — sem causa identificável (HPN idiopática).
A Tríade de Hakim — como reconhecer
- 🚶 Alteração da marcha: passos curtos, lentos, arrastados — como se os pés estivessem "colados no chão". É o sintoma mais precoce e mais responsivo ao tratamento.
- 🧠 Declínio cognitivo: lentidão de pensamento, dificuldade de atenção e memória. Diferente do Alzheimer, não há afasia nem agnosia pronunciadas no início.
- 💧 Incontinência urinária: urgência miccional, perda involuntária de urina. Geralmente o sintoma mais tardio da tríade.
Não é necessário ter os três sintomas para suspeitar de HPN — a alteração da marcha isolada, especialmente em idoso, já deve levantar a hipótese.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é clínico-radiológico e pode ser confirmado por teste terapêutico:
- Ressonância ou tomografia do crânio: mostra dilatação dos ventrículos (índice de Evans > 0,3) desproporcional ao grau de atrofia cortical;
- Teste de punção (tap test): retirada de 30–50 mL de líquor por punção lombar. Melhora da marcha nas 24–72h seguintes é forte indicador de resposta à derivação;
- Monitorização da pressão intracraniana: em casos selecionados, pode mostrar ondas B patológicas.
Tratamento: derivação ventrículo-peritoneal
O tratamento definitivo é a cirurgia de derivação (shunt), mais comumente a derivação ventrículo-peritoneal (DVP). Um cateter é posicionado no ventrículo cerebral e conduzido subcutaneamente até o abdômen, onde o excesso de líquor é reabsorvido. A válvula reguladora controla o fluxo de acordo com a pressão.
Os resultados são melhores quando o diagnóstico e o tratamento são precoces — antes que o dano cerebral se torne irreversível. Em pacientes bem selecionados, mais de 60–70% apresentam melhora significativa da marcha e da continência.
Perguntas frequentes
Não. São condições distintas. A HPN é potencialmente tratável; o Alzheimer, não. O diagnóstico diferencial é fundamental — por isso todo paciente com demência deve ter neuroimagem para excluir HPN.
Sim, como qualquer procedimento cirúrgico. Os principais riscos incluem infecção, disfunção da válvula e subdural. A decisão envolve pesar os riscos contra o benefício de recuperar função em paciente com HPN.
Em muitos casos sim, especialmente na marcha. O acompanhamento regular é necessário para ajuste da válvula e detecção precoce de complicações.
📚 Referências científicas
- Relkin N et al. Diagnosing idiopathic normal-pressure hydrocephalus. Neurosurgery. 2005;57(3 Suppl):S4-16.
- Williams MA, Malm J. Diagnosis and Treatment of Idiopathic Normal Pressure Hydrocephalus. Continuum. 2016;22(2):579-99.
- Associação Brasileira de Neurologia — Diretrizes para HPN idiopática, 2021.
