🧠 Neurocirurgia

Hidrocefalia de Pressão Normal (HPN): a causa tratável de demência que muitos médicos não reconhecem

Dr. Paulo Bahia
Dr. Paulo Bahia — Neurocirurgião
CRM-BA 30389 | RQE 23922 · 16 de julho de 2026

Imagine um paciente idoso com dificuldade para caminhar, lentidão de raciocínio e episódios de perda urinária. É natural que a família e até alguns médicos pensem em Alzheimer ou Parkinson. Mas há uma condição que imita essas doenças — e que, ao contrário delas, tem tratamento cirúrgico com alta probabilidade de melhora: a Hidrocefalia de Pressão Normal (HPN).

Reconhecer a HPN antes que o paciente piore é um dos aspectos que mais me motivam na prática neurocirúrgica. Cada diagnóstico correto pode devolver anos de vida funcional a uma família inteira.

ventrículos dilatados TRÍADE: 🚶 Marcha 🧠 Cognição 💧 Bexiga derivação
Hidrocefalia de Pressão Normal (HPN): ventrículos cerebrais dilatados com a tríade clássica — alteração da marcha, déficit cognitivo e incontinência urinária. Imagem educativa.

O que é Hidrocefalia de Pressão Normal?

A hidrocefalia ocorre quando há acúmulo excessivo de líquor (líquido cefalorraquidiano) nos ventrículos cerebrais. Na HPN, esse acúmulo dilata os ventrículos — comprimindo o tecido cerebral ao redor — mas a pressão medida na punção lombar está dentro dos limites normais ou levemente elevada. Daí o aparente paradoxo no nome.

A fisiopatologia envolve alteração na absorção do líquor, frequentemente ligada a inflamação crônica das meninges, sequela de hemorragia subaracnóidea, meningite ou — na maioria dos casos — sem causa identificável (HPN idiopática).

A Tríade de Hakim — como reconhecer

🔺 Três sinais que devem acender o alerta
  • 🚶 Alteração da marcha: passos curtos, lentos, arrastados — como se os pés estivessem "colados no chão". É o sintoma mais precoce e mais responsivo ao tratamento.
  • 🧠 Declínio cognitivo: lentidão de pensamento, dificuldade de atenção e memória. Diferente do Alzheimer, não há afasia nem agnosia pronunciadas no início.
  • 💧 Incontinência urinária: urgência miccional, perda involuntária de urina. Geralmente o sintoma mais tardio da tríade.

Não é necessário ter os três sintomas para suspeitar de HPN — a alteração da marcha isolada, especialmente em idoso, já deve levantar a hipótese.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é clínico-radiológico e pode ser confirmado por teste terapêutico:

Tratamento: derivação ventrículo-peritoneal

O tratamento definitivo é a cirurgia de derivação (shunt), mais comumente a derivação ventrículo-peritoneal (DVP). Um cateter é posicionado no ventrículo cerebral e conduzido subcutaneamente até o abdômen, onde o excesso de líquor é reabsorvido. A válvula reguladora controla o fluxo de acordo com a pressão.

Os resultados são melhores quando o diagnóstico e o tratamento são precoces — antes que o dano cerebral se torne irreversível. Em pacientes bem selecionados, mais de 60–70% apresentam melhora significativa da marcha e da continência.

Perguntas frequentes

HPN é o mesmo que Alzheimer?

Não. São condições distintas. A HPN é potencialmente tratável; o Alzheimer, não. O diagnóstico diferencial é fundamental — por isso todo paciente com demência deve ter neuroimagem para excluir HPN.

A cirurgia de derivação tem riscos?

Sim, como qualquer procedimento cirúrgico. Os principais riscos incluem infecção, disfunção da válvula e subdural. A decisão envolve pesar os riscos contra o benefício de recuperar função em paciente com HPN.

A melhora após a cirurgia é permanente?

Em muitos casos sim, especialmente na marcha. O acompanhamento regular é necessário para ajuste da válvula e detecção precoce de complicações.

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📚 Referências científicas

  1. Relkin N et al. Diagnosing idiopathic normal-pressure hydrocephalus. Neurosurgery. 2005;57(3 Suppl):S4-16.
  2. Williams MA, Malm J. Diagnosis and Treatment of Idiopathic Normal Pressure Hydrocephalus. Continuum. 2016;22(2):579-99.
  3. Associação Brasileira de Neurologia — Diretrizes para HPN idiopática, 2021.
Dr. Paulo Bahia
Dr. Paulo Bahia
Neurocirurgião · CRM-BA 30389 · RQE 23922 · Membro SBN
Neurocirurgião com residência no Hospital Municipal Miguel Couto (RJ). Membro titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia. Atende em Teixeira de Freitas, Extremo Sul da Bahia, com foco em cirurgia da coluna, neurocirurgia craniana, nervos periféricos e tratamento intervencionista da dor.
Conteúdo educativo. Não substitui consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente por profissional habilitado.

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